Detalhe de Autor

Gustavo Gutiérrez

Teólogo peruano e sacerdote dominicano, considerado por muitos como o fundador da «Teologia da Libertação», nasceu em Lima (Peru), em 1928.
Aos 12 anos, era aluno dos Irmãos Maristas, e teve de abandonar os estudos vitimado por uma osteomielite que o reteve de cama e em cadeira de rodas até aos 18.
Desse tempo de retenção forçada, lembra o desejo de ser padre, que pouco depois o abandonou, mas, movido pela causa da pobreza em que viviam muitas famílias modestas, incluída a sua, assim como a marginalização provocada pela doença, que vitimava e condicionava as escolhas, ingressou na Ordem Terceira Franciscana, aos 14 anos. Do longo tempo de convalescença, lembra as muitas leituras que fez, muito influenciado por seu pai, cujo sentido de humor, mesmo nas grandes dificuldade, acha que herdou dele. Retém, dessas leituras, particularmente: Pascal, que o marcou para sempre; Giovanni Papini, que profundamente o tocou; mas também muito do que descobriu em Karl Jaspers e em Honorio Delgado.
Assim que se sentiu recuperado, quis tornar-se psiquiatra, pelo que se inscreveu em Medicina e Filosofia na Universidad Nacional Mayor de San Marcos, onde, passou a participar ativamente também na vida política da universidade.
Como militante da Ação Católica, interessou-se pela reflexão e aprofundamento de temas teológicos, e, aos 24 anos, sentiu-se interpelado a abraçar a vida sacerdotal, tendo entrado para o seminário em Santiago do Chile.
Na sequência da sua formação, continuou os estudos de Filosofia e de Psicologia na Universidade Católica de Lovaina (onde dissertou sobre Freud); e, os de Teologia: na Universidade Católica de Lyon, onde conviveu e partilhou investigação com Albert Gelin, Gustave Martelet e os dominicanos Marie-Dominique Chenu, Christian Duquoc e Claude Geffré; na Universidade Gregoriana de Roma e no Instituto Católico de Paris, onde concluiu o Doutoramento.
Foi ordenado sacerdote em 1959 e, após a ordenação, voltou ao Peru, tendo sido colocado numa paróquia do bairro pobre de Rimac, em Lima, e também capelão dos movimentos cristãos, a que dedicou o seu trabalho pastoral, assim como a docência na universidade católica.
Em 1967, o padre Gutiérrez, na Universidade de Montreal, abordará a questão da pobreza de uma forma original, distinguindo-lhe três dimensões: a pobreza real, de todos os dias: «Ela não é uma fatalidade; mas sim, uma injustiça»; a pobreza espiritual: «Sinónimo de infância espiritual, consiste em colocarmo-nos nas mãos de Deus»; e a pobreza como compromisso: «Leva a viver em solidariedade com os pobres, a lutar com eles contra a pobreza, a anunciar o Evangelho a partir deles.»
No ano seguinte, em Chimbote (Peru), explicará de forma mais abrangente os conceitos, passando a denominar esta teologia como «Teologia da Libertação». Esta nova linguagem teológica serviria de inspiração aos bispos reunidos em Medellín (Colômbia) para a II Conferência do Episcopado Latino-Americano, com resultados confirmados, em 1979, pela Conferência Episcopal reunida em Puebla (México).
As consequências de ordem política desta nova posição teológica – a opção pelos pobres levada para o campo do confronto físico (espoliados contra a prepotência dos poderosos) – levaria a Congregação para a Doutrina da Fé, em 1984, a criticar severamente Gustavo Gutiérrez, assim como a outros, exigindo-lhes alguma contenção no plano material da ação. Em 2004, findo um «diálogo» de 20 anos, o então Prefeito da Congregação, cardeal Ratzinger, emitiria um comunicado congratulando-se pela «satisfatória conclusão desse caminho de esclarecimento e aprofundamento».
Sobre o esforço despendido, e nem sempre compreendido, de todos aqueles que se empenharam na difusão da Teologia da Libertação, o padre Gutiérrez afirma: «A teologia da libertação pode até desaparecer, mas, se restar a preferência pelos pobres, nós teremos vencido algo importante, profundamente ligado à Revelação.»
Em 1998, pediu o seu ingresso na Ordem dos Pregadores, em cuja comunidade de Lima passou a viver. Atualmente, divide o seu tempo entre o seu trabalho pastoral, a pregação de retiros e cursos de Teologia, na Universidade de Notre-Dame (Indiana, EUA) e no Studium Dominicano de Lille (França). Mas, continua a sua obra teológica, de uma forma incansável. Entre 1979 e 2006, foram-lhe concedidos 23 títulos de Doctor Honoris Causa, outorgados por diversas universidades: Peru, Argentina, Holanda, Suíca, Alemanha, EUA, Canadá e Escócia. E em 2003, recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias, pela Categoria Comunicação e Humanidades.
Da sua vasta produção literária destacam-se: Em busca dos pobres de Jesus Cristo: o pensamento de Bartolomeu de Las Casas (1995); Falar de Deus, a partir do sofrimento do inocente: uma reflexão sobre o livro de Job (1986); com José Luis Indigoras e outros: Reflexão sobre a teologia da libertação: perspetivas a partir do Peru (1986); Beber no seu próprio poço: no itinerário espiritual de um povo (1983); A força histórica dos pobres (1983); O Deus da Vida (1982); Entre as calandrias (1982); com outros: Sobre o trabalho humano: comentários à Encíclica Laborem exercens (1982); Os pobres e a libertação, em Puebla (1979); A nova fronteira da teologia na América Latina (1977); Teologia a partir do reverso da história (1977); Religião, instrumento de libertação? (1973); Teologia da libertação – perspetivas (1971).

Produtos do Autor


calendário de eventos
<Março de 2019>
domsegterquaquisexsáb
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31